

Há quarenta anos, quando ainda era chamado “Concertos de Inverno de Campos do Jordão”, o Festival recebeu o violonista Turíbio Santos para um recital na Capela do Palácio da Boa Vista. No sábado, 25 às 17h, Fábio Zanon se apresentou no mesmo local em um dos últimos concertos desta edição do evento. Às 21h, o grupo francês de música antiga Le Poème Harmonique, comandado pelo maestro Vincent Dumestre, interpretou um repertório barroco, fundado na tradição religiosa da semana santa.
O Palácio da Boa Vista é um belo cenário para apresentações musicais. No entanto, durante 20 anos permaneceu ausente da programação do Festival de Campos do Jordão, sendo reativado como palco do evento há seis anos. No final da tarde de sábado, 25, o diretor artístico do Festival Roberto Minczuk, em suas palavras de abertura do recital, definiu como “um dos maiores interpretes de sua geração” o violonista Fábio Zanon, que, em seguida, deu início ao concerto com obras de Gilberto Mendes e Heitor Villa-Lobos.
Antes da execução das peças, Zanon fez uma breve explanação sobre cada autor ou conjunto de obras. Sobre Gilberto Mendes, compositor homenageado desta edição do Festival, afirmou ser uma dos artistas mais importantes na divulgação da música contemporânea, tendo criado o Festival Música Nova ainda nos anos 60. “Ele me enviou duas músicas que irei executar aqui hoje: Quasi una Passacaglia e Prelúdio. Em um primeiro momento estranhei um pouco a simplicidade das obras, vindas de um autor tão complexo como Gilberto Mendes. Ao analisá-las mais vezes, no entanto, fiquei intrigado e a cada nova execução percebo suas formas enigmáticas se destacarem”, revelou o violonista.
Heitor Villa-Lobos foi outro compositor homenageado neste ano no Festival, pelo cinquentenário de seu falecimento. “Villa-Lobos revolucionou a escrita para violão”, afirmou Zanon, que interpretou o Prelúdio n° 1, os Estudos n° 8 e n° 10, conhecido como Estudo Amazônico, além do Choros n° 1. Em seguida, executou quatro Estudos de Francisco Mignone, os de número 4, 6, 7, e 9. “Se Villa-Lobos representa o lado índio do Brasil, Mignone representa o lado negro, traduzindo as influências africanas do País em sua obra”, definiu o violonista, que disse ainda que a música escrita para violão por Mignone é muito menos tocada do que deveria.
Após o intervalo, Fábio Zanon executou dois ciclos: um de músicas francesas e outro de peças latino-americanas. “A França é muito importante para a trajetória do violão. Foi neste País, por exemplo, que Villa-Lobos encontrou-se com Andrés Segovia e onde este se tornou conhecido”. O ciclo francês compreendeu obras de Claude Debussy – La fille aux cheveux de lin -, Albert Roussell – Segovia, Op. 29, Francis Poulenc – Sarabande -, e Jacques Ibert - Française.
“Em minhas turnês sempre procuro tocar peças de autores dos países que visito. Dessa forma, ao longo do tempo, pude juntar um repertório de compositores latino-americanos”. O ciclo latino-americano foi reunido em forma de Suíte pelo violonista brasileiro. Introduzido pelo Prelúdio, de Gilberto Mendes, foi composto por Triste n°1, de Eduardo Fabini, Aire Norteño, de Maria Luísa Anido, Así Yo Te Soñé, de Rafael Miguel López, Porro, da 2° Suíte Colombiana, de Gentil Montaña, Balada para Martín Fierro, de Ariel Ramírez, e Emboscada, de Paulo Bellinati.
Le Poème Harmonique
Um dos concertos mais aguardados do 40° Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão foi, sem dúvida, o do grupo francês Le Poème Harmonique. Especializado no repertório barroco do século XVII, o grupo, dirigido pelo maestro Vincent Dumestre, apresentou o programa Tenebrae para o público que lotou o auditório Claudio Santoro na noite de sábado, 25.
Iluminados por velas e com instrumentos de época, como o cravo, órgão, viola de gamba e teorba, os cantores e instrumentistas interpretaram peças que têm ligação com a semana santa: Psaume In te Domine Speravi en faux bourdon, de autor anônimo, III° leçon de Ténèbres du Jeudi à voix seule e Miserere mei Deus, de Michel Richard de la Lande, e 7ème méditation e 9 ème méditation, de Marc Antoine Charpentier.
Composto, para este concerto, por Vincent Dumestre (regência e teorba), Camille Poul (soprano), Bruno Le Levreur (contra tenor), Serge Goubioud (tenor), Benoît Arnould (barítono), Lucas Peres (viola de gamba) e Frédéric Michel (órgão e cravo), o grupo esteve pela primeira vez no Brasil. “Fiquei impressionado com a beleza e acústica do auditório, que foi até melhor do que a das igrejas onde normalmente apresentamos este programa”, afirmou Vincent Dumenstre.
“O Brasil tem músicos muito bons que executam o repertório barroco. Trabalhamos para que essas obras sejam mais conhecidas e notamos que existe um forte interesse do público por este tipo de música. É um mercado importante que deve ser melhor explorado”, revelou o maestro.
Praça do Capivari
O sábado, 25, foi marcado ainda por duas apresentações na Praça do Capivari: da Orquestra Acadêmica e da Orquestra de Metais Lyra Tatuí. Comandada pelo maestro Roberto Minczuk, a Orquestra Acadêmica, formada por bolsistas e professores do Festival de Campos do Jordão, executou La Valse, de Maurice Ravel, e a Sinfonia n°3 em dó menor, Op. 78, também conhecida como Sinfonia Órgão, de Camille Saint-Saëns.
Às 16h, a Orquestra de Metais Lyra Tatuí, do regente e arranjador Adalto Soares, mesclou repertório erudito e popular, com obras de Alfred Reed, Paul Dukas, Henry Mancini, Heitor Villa-Lobos, Tom Jobim, Gilberto Gagliardi e Zequinha de Abreu. O concerto foi muito bem recebido pelo público, que vibrou com o encerramento ao som de Tico-tico no Fubá, de Zequinha de Abreu.
Foto de Heloísa Bortz