

Diana Ligeti nasceu na Romênia, onde iniciou os estudos musicais, em um primeiro momento com o piano e posteriormente com o violoncelo. Radicada em Paris, estudou no Conservatório da cidade e na Universidade de Sorbonne. Atualmente leciona no Conservatório de Paris e integra grupos de música de câmara. Nessa entrevista à reportagem do Festival, ela fala sobre educação musical, suas impressões sobre o Brasil e a respeito do evento em Campos do Jordão.
Diana, você é professora no Conservatório de Paris. Como foi feito o convite para que você viesse ao Festival de Campos do Jordão?
Penso que foi por meio da Culture France, organismo do Ministério Cultural Francês que se ocupa dos assuntos relacionados à cultura na França, que fez contato com o Conservatório de Paris para que houvesse um intercâmbio entre o Festival de Campos do Jordão e o Conservatório. Foram chamados cerca de uma dezena de professores, por meio de uma seleção estabelecida pela diretora de comunicação da instituição, Gretchen Amussen. Nós estamos muito felizes de estar aqui.
Como está sendo a sua passagem pelo Brasil?
Estou em Campos do Jordão apenas para a última semana do Festival. Cheguei no sábado, dia 18 de julho, pois não pude vir antes por estar em outro festival, na França. Mas estou muito satisfeita de estar aqui. É formidável!
O nível dos alunos do Festival é alto, do seu ponto de vista?
Sim, o nível deles é muito bom. O importante é que todos aprendem com todos. Eu aprendo com os alunos e espero trazer algo de novo para eles. Nós desenvolvemos diversas atividades, não só o curso regular, com o meu contato individual com cada um dos bolsistas e seus instrumentos, mas também um curso coletivo sobre temas específicos, como a obra para violoncelo de J. S. Bach, ou a leitura de partituras à primeira vista.
Você é de origem romena...
Nasci na Romênia e passei metade da minha vida nesse País e a outra metade na França, em Paris.
Realizou seus estudos tanto na Romênia como em Paris?
Comecei meus estudos na Romênia e fui até onde era possível progredir em meu País. Depois continuei em Paris.
É difícil para alguém vindo de um País como a Romênia alcançar sucesso internacional em sua carreira?
Penso que cada percurso é diferente. No meu caso não foi tão difícil, porque tive muitas oportunidades. As coisas se encadearam de forma maravilhosa para mim. Dou muito valor à base que recebi na Romênia, o que me forneceu os meios para que pudesse progredir junto ao Conservatório de Paris.
Este ano no Festival temos outro professor com a mesma origem que você, o contrabaixista Cristian Braica...
Ele é da mesma cidade que eu. Nos conhecemos quando éramos crianças, estudamos na mesma escola de música e no mesmo Conservatório, de Cluj-Napoca. Foi um prazer reencontrá-lo aqui. O mundo da música é pequeno. Encontramo-nos no Brasil, mas poderia ter sido em outro lugar. É formidável ver pessoas que não temos contato há muito tempo e que possuem uma trajetória extraordinária.
Por que você fez a opção pelo violoncelo?
Comecei tocando piano. Um primo meu era violoncelista e quando ouvi o som desse instrumento, disse: - É isso que quero fazer.
A edição deste ano do Festival de Campos do Jordão apresentou um incremento na quantidade de programas de música de câmara. Você considera que isso seja importante?
Muito importante. A prática de música de câmara é absolutamente indispensável, com a qual aprendemos muito. O repertório de música de câmara é formidável e aqui no Festival foram compostos quase 100 grupos, com todas as formações possíveis para executar músicas barrocas, contemporâneas. Uma riqueza extraordinária que deve continuar no Festival, com certeza.
Também houve um aumento da execução de repertórios contemporâneos...
É preciso viver em conformidade com a sua época. Não podemos trabalhar com Beethoven ou Brahms, portanto devemos trabalhar com as pessoas que estão realizando suas obras atualmente, para tentar compreendê-los um pouco mais. Dessa forma, aprendemos a olhar de uma maneira diferente a partitura. Em contato com os compositores contemporâneos podemos imaginar como seria estar ao lado daqueles que não estão mais conosco. A linguagem, a escrita contemporânea nos enriquece e ajuda a entender a música feita em outras épocas.
2009 é o Ano França no Brasil. Qual a importância desse intercâmbio entre os dois países?
Eu não conhecia o Brasil, a não ser por sua reputação no futebol. Estou feliz em conhecer o País, as pessoas, os músicos. Pelo pouco que conheci do Brasil, pude sentir uma energia positiva extraordinária. As pessoas são muito abertas e esse intercâmbio cultural é muito enriquecedor e necessário. Aprendemos a viver com aqueles que têm percursos e visões de mundo diferentes.
O contato com os bolsistas e com o País influencia de alguma forma o seu próprio trabalho?
Com certeza. Descobri músicas que não conhecia e outros compositores brasileiros além de Heitor Villa-Lobos, de quem já havia ouvido certas obras, mas pude aprofundar o meu conhecimento. São pontos de vista e tradições diferentes que confronto com aquilo que penso para extrair algo melhor no futuro.
Sua visão sobre o Brasil mudou estando aqui?
Quando não vivemos ou nunca visitamos o País a nossa imagem é composta de clichês. O Brasil é muito mais complexo e diversificado do que aquilo que eu imaginava. Apesar do pouco tempo que passei aqui, já estou com vontade de voltar e conhecer outras coisas.
Você é engajada em projetos sociais na França relacionados à música. Como funcionam?
Trabalho com diversas associações e realizo concertos em escolas, hospitais, prisões e casas de repouso para idosos. As apresentações são pensadas de acordo com as faixas etárias dos espectadores. Tocamos em lugares periféricos das grandes cidades da França, levando o poder transformador da música. Tive sorte de ter oportunidades em minha vida e procuro levar isso para as pessoas. Todos deveriam se doar um pouco nesse sentido. Se vamos conseguir mudar o mundo, acredito que seja com a música, esse é o caminho.
Você teria um conselho a dar aos jovens músicos?
De continuar, ser sempre curioso e tocar repertórios diferentes. Aqui os alunos são muito curiosos e apreciam o conhecimento trazido pelos professores. Por vezes, existem músicos talentosos que acham que isso por si só já basta, mas aqui esse não é o caso. Os alunos daqui, mesmo que muito talentosos, têm uma enorme vontade de progredir e de estar sempre aprendendo.
O que você irá levar do Brasil na sua volta à França?
Além de novas amizades, irei levar muitas partituras de compositores brasileiros. Espero poder voltar a me apresentar junto aos músicos com os quais toquei aqui em Campos do Jordão, tanto os do Brasil como os de fora do País. O Festival de Campos do Jordão é muito cosmopolita, com pessoas vindas da Holanda, Estados Unidos, França e até mesmo um colega romeno. A música permite essa mescla de diferentes idiomas, por ser uma linguagem universal.