Confira os eventos de cada dia do festival
Entrevista exclusiva: Guillaume Bourgogne, regente residente
O regente fala sobre a sua experiência com os bolsistas do festival
21/7/2009

Regente residente do festival de 2009, Guillaume Borgogne também estudou no Conservatório de Paris, onde obteve prêmios de harmonia, análise musical e orquestração, por unanimidade. Pela primeira vez no Brasil, Borgogne conta um pouco sobre sua experiência com os bolsistas do festival. Confira a entrevista:

É a sua primeira vez no Brasil. Que impressão você teve até agora?

Minha impressão até aqui é muito boa. É a minha primeira vez não só no Brasil, como na América do Sul.

E quais foram as impressões do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão e dos bolsistas do seu curso?

Para mim, o festival é uma ótima oportunidade de encontrar novos músicos e de conhecer melhor a cena musical brasileira. Na França, por diferentes razões, ficamos por vezes confinados a nossa própria cena musical, sobretudo na música contemporânea. Então é muito importante para mim poder ver o que é feito em outros países, sobretudo na América do Sul, da qual emana uma forte energia em muitas áreas, como a música.
Aqui no Festival encontrei estudantes muito bons, que me parecem muito interessados e entusiasmados com o curso de regência e com o repertório que estamos trabalhando, como obras contemporâneas mas também Ravel e Villa-Lobos. Os bolsistas estão abertos aos novos conhecimentos e com disponibilidade de ensaiar, além de possuírem grande qualidade e profissionalismo. A cada dia de curso posso constatar a sua evolução em diversos aspectos.

Como estão sendo as aulas?

Trabalhamos inicialmente sobre o repertório do concerto do Grupo de Câmara do Festival que dirigi no dia 13 de julho. Para o concerto do dia 19 de julho, no qual os alunos participam efetivamente, ensaiamos a regência das composições inéditas feitas pelos alunos do professor Stefano Gervasoni.

Como foi feito o convite para que você participasse do festival?

Como este é o Ano França no Brasil e o Festival de Campos do Jordão estabeleceu uma parceria com o Conservatório de Paris, esta instituição convidou professores que tivessem o perfil para participar desse evento a virem lecionar no Brasil. No campo da música contemporânea, mesmo eu não sendo professor do Conservatório, mas com diversas participações como regente da Orquestra do Conservatório e da orquestra dos estudantes premiados dessa instituição, eles consideraram que eu seria a pessoa certa para estar aqui, o que me deu grande prazer e alegria.

E o compositor residente do Festival, Stefano Gervasoni, você o conhecia anteriormente?

Sim. Stefano é professor de composição no Conservatório de Paris e eu dirijo com frequência as obras escritas pelos estudantes contemplados no concurso de composição da instituição, que são seus alunos. Também já tive a oportunidade de reger peças suas, e novamente poderei fazê-lo aqui no festival, o que me agrada muito.

Você havia tido contato anteriormente com a obra do compositor Heitor Villa-Lobos?

Já havia tido contato, mas nunca regi obras suas. Como fui saxofonista, conheci composições como o Sexteto Místico e o Choros n° 7 e mesmo a série das Bachianas Brasileiras.

A música brasileira lhe é familiar?

Conheço bem a bossa nova, porque como saxofonista costumava tocar os standards desse gênero. Gosto muito de Caetano Veloso, que conheci em um filme de Antônio Almodóvar, no qual ele interpretava uma canção em espanhol. Fiquei encantado com ele e comprei alguns de seus discos depois disso. Outro artista brasileiro que posso citar é Hermeto Pascoal, uma figura delirante que vi em um vídeo tocando flauta dentro d’água. Estou contente de reger peças de Villa-Lobos e Gilberto Mendes aqui em Campos do Jordão.

Este ano o Festival de Campos do Jordão tem em sua programação muitas obras de música contemporânea. Para os bolsistas que querem seguir nessa área, onde eles poderiam estudar no exterior?

Eu sinto um grande interesse pela música contemporânea por parte dos alunos que encontrei aqui no festival. Se eles quiserem estudar no exterior, temos na França o IRCAM, no qual estão muitos grupos que executam essa música, e o CDMC – Centre de Documentation de la Musique Contemparaine. Existem centros de estudo também na Alemanha, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos.

Você dirigiu a orquestra em duas trilhas sonoras de cinema: “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” e “Adeus Lênin!”. A música feita para o cinema é diferente daquela feita para outros meios?

Sim. Existe principalmente uma diferença estética. Yann Tiersen, autor dessas duas trilhas sonoras, é um compositor popular, pop. No caso de “Amélie Poulain”, as músicas não foram originalmente feitas para o filme, e sim para um álbum. Em “Adeus Lênin!” acompanhávamos a projeção do filme para haver sincronia com a música. Essa particularidade torna a sua execução comparável a certas experiências de obras contemporâneas que se apropriam de elementos eletrônicos, eletroacústicos e de imagens.

Você trabalha com frequência com outros gêneros, como a música popular?

Eu não diria com frequência. São experiências como essa, com Yann Tiersen, com quem fiz, além dessas duas trilhas, uma turnê e outras gravações. Foi uma experiência interessante.

E o que você gosta de escutar em seu tempo livre, longe das salas de concerto?

Para a surpresa de muitos, escuto bastante jazz. É a minha música do cotidiano, todos os dias escuto um pouco. Talvez por minha formação como saxofonista. Claro que também ouço música contemporânea e clássica, porque é a minha vida. Mas a minha música de todos os dias é mesmo o jazz, entre eles o moderno, experimental, atual.


Foto de Heloísa Bortz

Fonte: (Comunicação - Festival de Campos do jordão)
  • Nao há vídeos relacionados
  • Nao há galerias relacionadas
  • Nao há arquivos de áudio relacionados